As tecnologias digitais e a transformação do cotidiano



Imagem de Jonny Lindner por Pixabay 

Uma breve e mesmo superficial análise de nossa realidade cotidiana nos revelará uma profunda presença da Tecnologia. As demandas pelo seu uso são tão constantes, que tornaram-se naturalizadas. Elas fazem parte de ações corriqueiras como o pagamento do pão na padaria, por meio do cartão de débito automático, ou ainda facilitam as compras gerais através do e-comerce. Da mesma forma, o avanço da medicina e da própria ciência, nos último anos, estão ligados aos desenvolvimentos das tecnologias digitais. Estas também têm alterado o processo de Educação em todo o mundo e potencializado as possibilidades de melhoria do processo de ensino- aprendizagem. Podemos afirmar desta forma, que as Tecnologias Digitais e a Cibercultura estão ocasionando profundas transformações em nossa maneira de ser, pensar e agir, criando o processo de ciborguização.
Podemos entender como Cibercultura, o “Conjunto de práticas, de atitudes, de significados, de símbolos, de modos de pensamento e de valores produzidos, experimentados e compartilhados no ciberespaço”(SALES, 2018 página 02) . Já Ciberespaço “é aqui compreendido como o território que surge da interconexão mundial dos computadores, a internet. Não se refere apenas à infraestrutura material da comunicação digital, mas também ao universo oceânico de informações que ela abriga. É um espaço com existência tão real quanto qualquer outro” (SALES, 2018 página 03). Já a ciborguização é “Incorporação das tecnologias digitais em nossos modos de existência, em nossas práticas cotidianas, em nossas condutas, em nossas formas de pensar e de gerir a vida. A ciborguização altera nossa existência e acontece em diferentes graus de intensidade. Há práticas altamente ciborguizadas, que requerem elevado nível de conhecimentos cibernéticos, e outras nem tanto” (SALES, 2018 página 04). Esse termo vem do conceito de ciborgue: Originalmente o termo se refere a um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo.Com a multiplicação dos artefatos tecnológicos, nos últimos tempos, a noção de ciborgue tem-se ampliado para toda pessoa que tem sua existência mediada pela tecnologia digital.O que caracteriza o ciborgue é justamente o hibridismo, a mistura, a montagem que desmancha qualquer tipo de dualismo em sua composição. A “confusão” de limites entre organismo/máquina, natural/artificial, natureza/cultura se combina na configuração do ciborgue”( SALES, 2018 página 05).
O exemplo e símbolo maior desse caminho para a ciborguização e das mudanças de comportamento e relacionamentos sociais é o smartphone! Resultado da evolução tecnológica do telefone celular, criado na década de 1990, o smartphone é um aparelho que reúne várias funções como câmera fotográfica, gravador de vídeo, compartimento de arquivo, calculadora, envio e recebimento de arquivos de áudios e vídeos, aplicativos para conversas, dentre outras, além das funções “originais”: falar e receber chamadas. Enfim, ele é um computador de mão, adaptado para o uso diário e constante. Fruto de uma “necessidade criada”, o smartphone é hoje a maior mostra de como as tecnologias alteraram e continuam a alterar nossa forma de existir. Há pessoas, muitas delas, que não vivem e não conseguem se imaginar vivendo sem esse aparelho. Utilizam-no a todo momento da vida e estão conectados a ele como se os dois fossem um único ser. Esse é o mais vivo exemplo de ciborguização conforme o conceito visto acima.
Podemos concluir então que a presença da tecnologia em nossas vidas é inevitável e irreversível. Da mesma forma, não se pode deixar de perceber os efeitos que a sua presença e o seu uso trazem para todos que estão envolvidos. Temos exemplos claros quando pensamos no filme “Her” (Spike Jonze, 2014) que conta a história de um escritor que se apaixona pelo sistema operacional de seu computador, a Inteligência Artifcial (AI). Ou ainda os magníficos episódios da série “Black Mirror” (Charlie Brooker, 2011), da empresa de streaming NETFLIX (o serviço de streaming também é resultado do avanço tecnológico) que contam os efeitos pessoais e sociais do uso da tecnologia (os dois possíveis de serem acessados pelo smartphone) Inicialmente uma pessoa menos afeita e mais cética às questões tecnológicas pode afirmar que esses dois exemplos são trabalhos de ficção. Porém, podemos considerar que os dois trabalhos midiáticos realizam problematizações sobre questões reais.
Como então lidar com essa situação que traz mudanças tão significativas? Podemos pensar que o primeiro passo é “aceitar” a sua existência e o seu poder de mudança. Não será produtivo demonizar e lutar contra essa realidade tecnológica. Aceitar a situação deve começar pela tentativa de entendimento do funcionamento de sua dinâmica social. Não se pode acreditar que o que ocorre a partir das tecnologias é apenas virtual, que não exista no “mundo real”. Além disso é necessário constatar os benefícios trazidos pela tecnologia, como a possibilidade de muitas e diferentes formas de aprendizado. O acesso quase ilimitado ao conhecimento. É a Educação 3.0. Desta forma, é fundamental conhecer mais sobre a tecnologia e como ela afeta nossa vida cotidiana para podermos fazer um melhor uso dela. É necessário perceber como a tecnologia cria condições para que que refaçamos, cotidianamente, nossa relação com os outros e nossa própria relação com a tecnologia. As mudanças estão transformando nossa maneira de ser, de agir e de viver o mundo. O conceito de ciborguização pode assustar mas ele tem também o poder de nos alertar para uma realidade latente que estamos vivendo.

REFERÊNCIAS:

ALVES, Marco Antônio Sousa. A cibercultura e as transformações em nossas maneiras de ser, pensar e agir. In: LIMA, Nádia Laguárdia; STENGEL, Márcia; NOBRE, Márcio Rimet; DIAS, Vanina Costa. (Orgs.). Juventude e cultura digital: diálogos interdisciplinares. Belo Horizonte: Editora Artesã. 2017. p. 169-180.

BLACK MIRROR. Produção de Charlie Brooker 2011. Disponível em: www.netflix.com.br

HARAWAY, Donna J. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 37-129.

HER. Direção de Spike Jonze. EUA: 2014. 1 DVD (126 min.).

SALES, S. LÉXICO CIBORGUE. Disponível em:

SALES, Shirlei. Potência Ciborgue: notas para escapar de ciladas teóricas em análises sobre currículos e tecnologias digitais. In: AGUIAR, M.A.S; MOREIRA, A.F.B; PACHECO, J.A.B. Currículo: entre o comum e o singular. Editora Anpae, 2018.Disponível em:https://www.anpae.org.br/BibliotecaVirtual/2-Coloquio/Serie7.pdf. (Páginas 236 à 247)


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