Qual tecnologia é mais importante: a internet ou o domínio do fogo? Uma pergunta para pensar



No início deste ano letivo, no mês de fevereiro, vivenciei uma situação profissional bastante instigante e o relato aqui contribui para o entendimento da ideia de criação deste blog e, principalmente, do seu título, que pode insinuar uma contradição (e também uma instigação). Atuo como professor do Ensino Médio nas modalidades de Ensino Regular e na EJA (Educação de Jovens e Adultos). No 3º Ano da EJA estava sendo trabalhado o tema “O Mundo do Trabalho”, fundamental para os alunos que estão nessa faixa etária (acima de 18 anos) e ainda não concluíram a Educação Básica. Falávamos sobre as profundas mudanças introduzidas pela tecnologia no campo profissional. Já no 1º Ano do Ensino Médio Regular estudávamos a Pré-História (tema controverso para os historiadores e que podemos discuti-lo em outro momento). Assim, estavam sendo feitos estudos de temáticas que, inicialmente, eram completamente contrárias, quase incompatíveis... 

Porém, conforme vimos no texto anterior deste blog, “A evolução da tecnologia: da descoberta do fogo à Inteligência Artificial”, tecnologia “diz respeito a muitas outras coisas além das máquinas. O conceito de tecnologia engloba a totalidade de coisas que a engenhosidade do cérebro humano conseguiu criar em todas as épocas, suas formas de uso, suas aplicações” (Kenski 1998). Assim, temos que o surgimento das tecnologias está entrelaçado à história da humanidade, desde o seu surgimento no planeta. Consequentemente, na Pré-História, já temos exemplo de tecnologia: a descoberta do fogo. Vale ressaltar, no entanto, que o fogo em si não é uma tecnologia, ele surge da natureza. O sentido de tecnologia está na sua DESCOBERTA, em suas formas de uso, suas aplicações. O fogo, na Pré-História, é usado para afugentar as feras selvagens, para preparar os alimentos e para se aquecer no frio. A descoberta do fogo passa a salvar vidas, aumenta a média de idade dos hominídeos, dá um novo rumo para a história da humanidade. 

Para ambientar, “ilustrar” e aprofundar o estudo da temática, utilizei o espetacular filme “A Guerra do fogo” (Jean-Jacques Annaud 1981). “O filme retrata um período na Pré-História de dois grupos de hominídeos. O primeiro, que quase não se diferencia dos macacos por não ter fala e se comunicar através de gestos e grunhidos, é pouco evoluído e acha que o fogo é algo sobrenatural por não dominarem ainda a técnica de produzi-lo; o outro grupo é mais evoluído e tem uma comunicação e hábitos mais complexos, como a habilidade de fazer o fogo. Esses dois grupos entram em contato quando o fogo da primeira tribo é apagado em uma guerra com uma tribo de hominídeos mais primitivos, que disputam pela posse do fogo e do território. Do contato com uma mulher do outro grupo, os três caçadores do fogo aprendem muitas coisas novas, já que ela domina um idioma muito mais elaborado que o deles, assim como domina também a técnica de produção do fogo. Levados por diversas circunstâncias a um encontro com a tribo de Ika, percebem que há uma maneira diferente de viver; observam as diferentes formas de linguagem, o sorriso, a construção de cabanas, pintura corporal, o uso de novas ferramentas, e até mesmo um modo diferente de reprodução”. Veja o trailer:






O filme foi utilizado inicialmente para o estudo da Pré-História. No entanto, com a possibilidade que vislumbrei, utilizei-o também com a EJA, no intuito de criar a situação-problema para envolver os alunos na busca pela solução, de acordo com o planejamento de desenvolvimento de competências na Educação, fugindo do “repasse” de conteúdo e observando o contexto vivenciado pelos alunos. Da mesma forma, utilizei com o Primeiro Ano os questionamentos sobre tecnologia e suas aplicações no cotidiano. Essa ação gerou algumas problematizações, que alteraram a direção de nossos estudos, mas também, valem para nossos questionamentos sobre tecnologia, educação e sociedade, que é a proposta deste blog.


Desta forma, elaborei algumas questões para os alunos, que deveriam respondê-las em dupla, observando a real situação vivida:


· O que é tecnologia e como ela está presente em suas vidas? (os alunos deveriam pesquisar os significado da palavra e relacioná-lo ao seu contexto de vida);

· Qual tecnologia foi “mais importante” para a vida da HUMANIDADE? A descoberta do fogo ou a invenção da internet? Obviamente que essa questão gerou grande discussão e debate. Eles tinham dificuldade de distinguir entre aquilo que era mais importante para si e o que era mais importante para a humanidade.

· Na Pré-História (de acordo com o filme) os hominídeos usavam de muita violência para a solução de suas questões cotidianas. A comunicação era muito difícil já que não estavam desenvolvidas a fala e a escrita (também uma tecnologia). Atualmente, a fala e a escrita estão consolidadas e a tecnologia contribui muito para a melhoria dessa comunicação. Então, por que há tanta violência entre os homens? As respostas variavam muito sobre as causas da atual violência: passavam pela questões passionais, “ambição”, rivalidades, poder, dinheiro e também que a tecnologia também acaba por causar problemas, com as revelações de “intimidades” e fofocas repassadas pelas redes sociais...


Com esse relato e essas considerações, procurei contribuir para as discussões sobre a presença da tecnologia em nosso cotidiano e seus efeitos na vida diária das pessoas, além de possibilidades de levar (necessariamente) essa discussão e sua aplicação nas escolas, a partir de uma ação pedagógica que contemple o ensino a partir dom desenvolvimento de competências, não mais como transmissão de conteúdos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


A GUERRA do fogo. Direção: Jean-Jacques Annaud, Produção: Denis Héroux, Jacques Dorfmann, John Kemeny, Véra Belmont, Michael Gruskoff. França, Canadá, 1981.

KENSKI, V. M. (1998). Novas Tecnologias: o redimensionamento do espaço e do tempo e os impactos no trabalho docente. Revista Brasileira de Educação, nº8, 58-71. Acesso: 03 ago. 2019. Disponível: http://anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE08/ RBDE08_07_VANI_MOREIRA_KENSKI.pdf

MORETTO, V. (2011). Planejando a educação para o desenvolvimento de competências. (En)caminhamentos, Novos Rumos da Educação- Fórum Técnico de educação, SESC MG, 01(01), pp.09,43.


PINTO, J. P. . A Guerra do Fogo: o processo de humanização. Caderno de Geografia, FUMARC/PUC/MINAS, v. 6, p. 79-87, 1996.





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