Ensino Remoto com tecnologias altas ou baixas, com baixo custo ou gratuitas



                                                         



A impossibilidade de aulas presenciais e a imposição do Ensino Remoto, devido à Pandemia de covid-19, está fazendo com que escolas e professores tenham que produzir e/ou utilizar ferramentas e conteúdos digitais para atenderem aos alunos e, principalmente, ao pais. Desta forma, como prometido no post anterior (Dicas de sobrevivência profissional para o professor durante e após o Ensino Remoto), apresento aqui algumas sugestões de aplicações de tecnologias que podem ser usadas durante e após a Pandemia.

Está claro que a suspensão das aulas é uma situação inédita para todos e, assim, novas alternativas estão sendo tentadas para solucionar ou amenizar as conseqüências da falta de aulas presenciais. Sabemos, no entanto, que a grande maioria das escolas e dos professores não estavam preparados para uma mudança tão brusca e tão radical no modelo de ensino aprendizagem.
Pesquisa do Instituto Península aponta que 88% dos professores nunca tinham dado aula a distância de forma remota e 83,4% não se sentem preparados para tal tarefa. Assim, verificar que quase 90% dos professores jamais tiveram uma experiência de ensino remoto mostra que quase todos estão começando do zero. Termos pouco mais de 10% da população com alguma experiência prévia não é suficiente para dar conta dos desafios de um país de dimensões continentais como o Brasil.

Ao mesmo tempo, porém, é necessário constatar os benefícios trazidos pela tecnologia, como a possibilidade de muitas e diferentes formas de aprendizado e estar aberto às possibilidades de potencialização do processo de ensino aprendizagem. As tecnologias devem ser consideradas o que verdadeiramente são: ferramentas, que podem contribuir.

A utilização desses recursos também proporciona benefícios para o próprio professor. Afinal, utilizá-los, de forma correta, reduz o uso apenas de entretenimento, por parte do aluno e, pode contribuir para desenvolver o senso crítico dos mesmos sobre as relações com o mundo digital, podendo ser, por exemplo, um propulsor para abordar temas como cyberbullying. Pode também, aumentar a produtividade do professor, diminuindo as tarefas repetitivas e maçantes no ato de ensinar.

Além disso, Para o professor José Moran, da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador de mudanças na Educação, a tecnologia traz hoje integração de todos os espaços e tempos.


Experiências, histórias reais 


Essas sugestões e reflexões vêm de tentativas, experiências reais, minhas e de colegas próximos. Para isso foram usadas Metodologias Ativas que objetivam desenvolver nos estudantes as habilidades e competências que necessitam para desempenhar suas atividades acadêmicas e profissionais e desenvolver autonomia para atuação e construção de uma sociedade democrática. Metodologia Ativa tem como base a autonomia do aluno. Esta deve ser entendida como um dos pilares para sucesso do processo educativo.

Também sou professor em escola estadual de ensino noturno em Minas Gerais, onde é gritante a carência de recursos e de materialidade. Assim, as estratégias utilizadas foram pensadas e construídas objetivando a implementação de Metodologias Ativas que possibilitassem a autonomia do aluno do Ensino Médio Regular e EJA, realizando a mediação com as ferramentas tecnológicas possíveis de serem alcançadas nesse ambiente educativo. O objetivo foi mostrar ao aluno que existem outras formas de estudar, construir, produzir e divulgar conhecimento, de forma colaborativa e solidária.


O que são Metodologias Ativas de Aprendizagem? 


Nesse modelo de ensino os alunos são incentivados a aprender de forma autônoma e participativa, a partir de problemas e situações reais. A proposta é que o estudante esteja no centro do processo de aprendizagem, participando ativamente e sendo responsável pela construção de conhecimento. Inicialmente isso parece uma utopia, correto?! Mas, pensemos que esse pode ser o momento ideal para implantar essa Metodologia. Afinal, os alunos não estão sendo observados por professores em sala de aula. Eles deverão demonstrar iniciativa para aprender algo.

Essa Metodologia pode proporcionar que o aluno pense de maneira diferente e procure resolver problemas conectando ideias que, em princípio, parecem desconectadas. Trabalhando com alunos da EJA conceitos e práticas de cidadania, por exemplo, muitos deles começaram a entender a dinâmica de funcionamento e a real importância do Posto de Saúde para uma comunidade. Eles entenderam o quanto o atendimento de saúde gratuito e universal é importante e compreenderam que não deveriam apenas cobrar e reclamar do funcionário que lá trabalha. É necessária uma atitude comunitária, de pertencimento, para que a situação fique melhor para todos.

As Metodologias possuem várias estratégias, é necessário investigar, descobrir aquela que melhor se encaixa para você e seus alunos. Para José Moran (USP), as metodologias precisam acompanhar os objetivos pretendidos. Nesse momento, por exemplo, o professor não tem condição de pedir trabalho de campo ou pesquisa in loco. Ao mesmo, porém, se queremos que os alunos sejam proativos, precisamos adotar metodologias em que eles se envolvam em atividades em que tenham que tomar decisões e avaliar os resultados, com apoio de materiais possíveis de serem usados na atualidade. O professor tem o papel de intermediar os trabalhos e projetos e oferecer retaguarda para os alunos.

Nesse sentido, a Aprendizagem baseada em problemas, dentro das Metodologias Ativas, apresenta-se com grande potencial, pois, seu ...”propósito é fazer com que os estudantes aprendam através da resolução colaborativa de desafios. Ao explorar soluções dentro de um contexto específico de aprendizado, que pode utilizar a tecnologia e/ou outros recursos, essa metodologia incentiva a habilidade de investigar, refletir e criar perante uma situação”. (José Moran). Essa forma de aprendizagem possibilita que tratemos de temas do cotidiano, saindo um pouco do esquema pronto dos livros didáticos (essa, no entanto, não é uma crítica ao livro didático, que considero uma grande ferramenta de ensino. E também é uma tecnologia).

Temos também a Aprendizagem baseada em projetos, que também é fundamentada na Aprendizagem baseada em Problemas. Esta exige que os alunos coloquem a mão na massa ao propor que eles investiguem como chegar à resolução de uma problematização. É o conceito “aprendendo a fazer”.

Sala de aula invertida. A sala de aula invertida, flipped classroom, pode ser considerada um apoio para trabalhar com as metodologias ativas, que tem como objetivo substituir a maioria das aulas expositivas por extensões da sala de aula em outros ambientes, como em casa, no transporte. Nesse modelo, o estudante tem acesso a conteúdo de forma antecipada, que pode ser enviado por meio de Plataforma de Ensino Online, por e-mail ou mesmo whatsapp.

O envio faz com que ele tenha um conhecimento prévio sobre o conteúdo a ser estudado e interaja com os colegas para realizar projetos e resolver problemas. É uma ótima maneira de fazer com que o estudante se interesse pelas aulas e participe ativamente da construção de seu aprendizado, ao verificar que há planejamento definido de aula e de curso, com a utilização de recursos variados, como vídeos, imagens, e textos em diversos formatos. É importante investir em conteúdos atrativos e interativos, para envolver os alunos na aprendizagem.

                                                        


Viu que as Metodologias Ativas podem não demandar tanta tecnologia? Elas podem ser implantadas utilizando-se aquilo que já temos em mãos. Não sendo possível a sala de aula física, podemos adaptar para o formato online ou remoto. 



Mas, tem sugestões de uso de tecnologia? 


Vamos relembrar que exemplos de tecnologia não são apenas os aparelhos eletrônicos de última geração. Assim, para as aulas remotas na Pandemia e, depois dela, necessitamos pensar em uma mudança de Metodologia. Desta forma, comece com simplicidade, pensando fazer aquilo que é possível com o que se tem disponível. Muitas vezes, imaginamos que é necessário ter todo um aparato tecnológico para levar a tecnologia para as aulas e, a realidade não é bem essa.

É possível utilizar ferramentas conhecidas, “antigas” e, por incrível que pareça, pouco utilizadas por muitos professores.


Ferramentas de baixa tecnologia e baixo custo 


Arquivos físicos ainda disponíveis como mapas, livros paradidáticos, imagens para as aulas de Artes e revistas. Essas últimas são agora também disponibilizadas em formato digital, nos pacotes de empresas telefônicas.

Temos o velho e conhecido vídeo. Em forma de filmes, documentários, séries, programas de TV, ele fornece ótimas condições para ilustrar, embasar e agregar valor às suas aulas. Como parte da preparação de suas aulas, o professor pode baixar muitas dessas mídias do YouTube ou dos serviços de streaming, gravar em pen drive, enviar para os alunos ou disponibilizá-los em arquivo de plataforma. Obviamente, funciona muito bem em sala de aula.

O pacote Office, do Windows, disponibiliza algumas boas ferramentas e grande interação nas aulas. Produção de textos no Word, Excel para a Matemática e o Power Point, que detém muitas funções e possibilidades. Com o programa é possível montar apresentações animadas, fazer vídeos, criar jogos, são alguns dos exemplos.

Através do seu smartphone o professor pode gravar podcasts, que são áudios curtos ou médios, com informações, dicas ou mesmo aulas para os alunos. Esses áudios podem ser editados no próprio aplicativo de gravação do aparelho ou podem ser baixados aplicativos gratuitos na internet, que fazem essa edição. Um desses aplicativos é o Audiocity, que também pode ser usado para realizar a gravação. O arquivo pode ser enviado para o aluno ou disponibilizado em plataforma.

Boa parte dessas ferramentas não necessita de internet para disposição e algumas delas também não necessitam de acesso online: professor, aluno e plataforma de ensino.


Tecnologias mais altas 


No atual cenário de avanço das tecnologias e crescente disponibilização de informações, o smartphone torna-se um importante recurso pedagógico, ainda pouco e mal explorado na Educação. Ele é tão importante que será tema de um próximo post neste blog. Por enquanto pode ser dito que ele proporciona que uma série de infinidades pedagógicas seja trabalhada de acordo com a proposta do professor: além das óbvias funções de chamadas, ele tem o whatsapp, propicia condições de pesquisa, realidade virtual, produções de vídeos, construção de narrativas, programas de colaboração, construção de textos, registros escritos e fotográficos, gravação de áudios, acesso às redes sociais,... 

                                                       



Por meio do smartphone ou do computador temos acesso ao Instagram, rede social de grande penetração, que possibilidade postagem de fotos e pequenos textos. Com ele o professor pode inserir fotos, imagens e textos introdutórios com o objetivo de criar interesse e engajamento nos alunos.

O computador conectado à internet proporciona acesso às mais diversas redes sociais como o Face book que tem diversos grupos de estudos temáticos, dando condição de pesquisa e informação para o professor. Essa rede também pode ser usada para formar grupos por turmas ou escola e fomentar discussões e criar atividades para construção conjunta e colaborativa.

Existem sites com milhões de imagens gratuitas que podem ser baixadas e usadas como no: pixabay.com e https://educacaoeinformatica.wordpress.com/

Através de aplicativos como Canva e Coogle podemos construir Mapas Mentais que nos ajudam a resumir ou introduzir temas, mostrando como as idéias se conectam.

O Prezi pode ser considerado uma “evolução” do Power Point, dando condições para apresentações muito animadas.

A GoConqr que é uma rede social de conhecimento nos possibilita construir Mapas Conceituais (mais complexos que os Mapas Mentais) e realizar outras trilhas de mídias de conhecimento, nos conectando a outras pessoas.

Grande parte dessas opções é GRATUITA e sem muitas complicações para aprender e divulgar as construções de conhecimento.

Além disso, os professores podem realizar a chamada curadoria de conteúdos, nas quais indicam leituras de livros, sites, vídeos, entre outras referências, incentivando os alunos a pesquisarem e refletirem sobre os temas abordados nas unidades de ensino. Os serviços de streaming deixaram essa tarefa bem mais fácil já que agrupam os conteúdos por categorias.

Assim, temos aqui algumas indicações de tecnologias para auxiliar no árduo trabalho de Ensino Remoto. Percebam que procurei indicar ferramentas de baixa tecnologia e baixo custo, pensando na opção de pouco acesso dos alunos, realidade que vivenciei enquanto professor de rede pública.


Relação professor/tecnologia 




A tecnologia trouxe mudanças inovadoras, com novas tendências. É possível adaptar o ensino buscando ter aulas mais atraentes despertando o interesse dos alunos para garantir o seu envolvimento no processo de aprendizagem.

Acima de tudo, no entanto, é necessário analisar o processo. Pouco se discute sobre as constantes mudanças e evoluções tecnológicas. As pessoas tendem a seguir as determinações, sem análise. Há nos ambientes escolares, um temor pelo desconhecimento do que está ocorrendo e, principalmente, pelo que pode acontecer em um futuro próximo. O momento sugere que estamos no meio de um furacão, tudo está girando e não sabemos o que sobrará, após o fim da ventania. 

Assim, há uma necessidade de que o professor esteja minimamente atualizado com as constantes mudanças e novas ferramentas tecnológicas que chegam ao mercado a todo momento. O receio de trabalhar e introduzir a tecnologia em seu fazer cotidiano profissional pode estar relacionado não necessariamente ao uso dela em si, mas, sim à resistência de sair do seu lugar seguro.

E como o Mestre pode responder a essas questões e se preparar para essa realidade? Podemos pensar que o primeiro passo é “aceitar” a presença da tecnologia na educação e o seu poder de mudança. Não será produtivo demonizar e lutar contra essa realidade tecnológica. Aceitar a situação deve começar pela tentativa de entendimento do funcionamento de sua dinâmica social.

Os nossos jovens nasceram neste novo tempo e estão familiarizados com as programas e softwares disponíveis. Importante salientar que mesmo assim, é necessário cuidar e ter um planejamento com objetivos claros permitindo o foco no aprendizado e desmistificando o uso para fins de entretenimento e atividades que podem ser realizada fora da sala de aula. Precisamos desmistificar a ideia de que o uso intenso das crianças e jovens com as tecnologias é a mesma coisa de um bom uso e consciente. Nós, professores, também podemos nos apropriar dessas ferramentas e usá-las a nosso favor.


A tecnologia é uma ferramenta. Ela não é um fim em si mesma.



Vander de Andrade
Professor de História/Historiador
Graduado em História e Especialista em Tecnologias Digitais e Educação 3.0

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